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sábado, 2 de março de 2024

VIDA BILÍNGUE – Quer aprender coreano? Então vá em frente!

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Já faz um tempo que sinônimo de novela deixou de ser somente o que passa na TV aberta das nossas casas. Agora quando se fala de novela sempre tem alguém que suspira ao falar “ah, adoro dorama!” Dorama ou K-drama são nomes que se dão às produções asiáticas dramatizadas, em especial as coreanas. Disponíveis nos streamings, essas produções vêm conquistando largamente um público cativo.

A proximidade do público de fora dos países asiáticos com essas produções tem feito crescer o interesse por aprender coreano. Sim, senhor! Coreano!

Aliás, falando em “Sim, senhor!”, quem não se lembra do personagem de Jim Carrey no filme que leva esse nome? O rapaz, que inicia a trama deprimido e isolado, começa a dizer “sim” pra tudo e se lança em diversas empreitadas, dentre elas aprender a pilotar avião e falar coreano. Com interesses tão específicos, chega a ser confundido com um espião e quase vai preso! Mas o que ele queria, mesmo, era sentir o sabor da vida, viver experiências diferentes.

O filme do Jim Carrey foi lançado em 2009, e naquele momento estudar coreano era realmente algo muito exótico. Agora não mais! A pergunta hoje é: por que alguém se lançaria ao aprendizado desse idioma, atualmente o sétimo mais estudado do planeta e o segundo idioma que mais cresce em interesse no Brasil?

Seria só o efeito “dorama” ou seria também o efeito K-pop, as famosas boys e girls bands coreanas? Porque Wanna One, New Jeans, ATEEZ, dentre tantas outras bandas têm feito um tremendo sucesso mundial e têm levado música e cultura coreana pra todos os cantos do planeta.

Eu honestamente não consigo responder a essa pergunta. Mas fui conversar com a publicitária, fotógrafa e produtora cultural Sirleide Vieira dos Santos, que além de adorar estudar idiomas tem se dedicado, atualmente, ao estudo de coreano e inglês ao mesmo tempo. Com a palavra, uma futura poliglota, uma quase expert em coreano.

 VIDA BILÍNGUE: O que levou você a se interessar por coreano?

 Sirleide Vieira: Muito provavelmente se eu tivesse mais disponibilidade de tempo e dinheiro, porque   demorei conseguir conciliar ambos, teria  investido mais precocemente no  aprendizado de outros idiomas. Eu sempre   gostei de conhecer culturas  diferentes e quando pequena  me imaginava  aprendendo muitos idiomas que na época eram: francês, japonês, espanhol e alemão, mas como disse, não  surgiu  oportunidade de conciliar  tempo  e dinheiro ao mesmo tempo naquele tempo. Desde nova, sempre fui uma entusiasta  da cultura oriental, mais especificamente da japonesa, até  então nunca tinha  cogitado aprender  coreano, mas,  quanto mais eu  ia sendo exposta significativamente a essa língua, mais eu me  interessava  em conhecer sobre.  E foi assim que  comecei  cogitar a aprender o idioma. Isso se deu no ano de  2016, o ano em  que  tudo mudou, em que tive contato com a língua  coreana pela primeira vez por meio de K-dramas (doramas ou novelas coreanas) eu  estranhei o  som das palavras (a fonética  é bem anasalada) conforme  fui  assistindo mais doramas  minha audição foi se  habituando ao idioma que até então me causava estranheza e comecei a repetir   algumas expressões comuns  que  ouvia nos k-dramas. Na época, busquei por mais  conteúdos   culturais que se  apresentavam a partir  dessas novelas coreanas e passei a ouvir  as OST (“Original Sound Track, o que seria em tradução livre a  trilha  sonora  original desses doramas)  o que me levou pouco tempo depois a navegar no Youtube em busca de músicas coreanas. Numa dessas empreitadas fui apresentada ao conteúdo de  uma boy band coreana, da qual hoje  sou fã, e na  vontade  de  entender  o que eles falavam nas lives, reportagens,  programas de variedades coreanas  tomei como decisão em algum momento da minha vida fazer o curso de coreano. Então, no ano de  2019 , sem que ao menos esperasse, planejasse ou buscasse, surgiu a oportunidade de fazer o curso, que foi indicado por uma amiga. Ele era uma possibilidade em que se casava tudo, eu  conseguiria conciliar tempo (era ano de  pandemia e na época estava sem trabalhar) e o investimento era acessível para mim. Agarrei essa oportunidade que não poderia escapar sem que ao menos tentasse e iniciei o curso no segundo semestre daquele ano sem pensar duas vezes, já que conforme ia vendo mais coisas sobre a Coreia do Sul, mais eu me interessava pela cultura coreana. Enquanto isso, paralelamente eu retornava ao estudos da língua inglesa.  É isso, uma cois  foi levando à outra e  cada vez mais me percebia mais  interessada e curiosa pela cultura. Como acredito que a melhor forma  de   entender um povo e sua cultura é  aprendendo o idioma local – porque sabê-lo contribui na  comunicação  com nativos – iniciei o curso. Para mim, é respeitoso quando se quer conhecer a cultura e aprende-se ainda que o mínimo do idioma.

VIDA BILÍNGUE: Como é a estrutura do curso de coreano que você faz?

Sirleide Vieira: Eu faço o curso  no Centro de Educação Coreana de São Paulo, que  é mantido pela  Embaixada do Governo Coreano, como forma de propagar a Hallyu (“Onda Coreana” que divulga a cultura da Coreia do Sul pelo Mundo  através de produtos  culturais como  k-drama, k-pop, cinema coreano que possibilitou popularizar a cultura e idioma). O curso tem um valor simbólico e é oferecido como ensino presencial ou on-line (esse modelo surgiu a partir da pandemia que exigiu esses novos métodos de ensino e aprendizagem). Faço online, uma  vez por semana  com  duas horas de duração. Há  dois tipos de  turma: Normal, que é o que eu faço, e o Oficial, modelo adotado recentemente, há quase um ano, diferentemente do Normal, ele tem uma carga horária maior e permite visto para estudo e trabalho na  Coréia do Sul.  O material didático adotado é um livro de ensino infantil, por  ambas as turmas,  além disso,  os professores passam conteúdos extra. O curso é dividido por  semestre, totalizando seis anos, se não surgirem imprevistos, fora o curso preparatório para o TOPIK, prova de proficiência, que seria similar ao TOEFL e TOEIC no inglês, que pode durar até um ano. Já o processo de estudo  iniciei do “Beabá”, por assim dizer, pois que o primeiro semestre introduziu o sistema de escrita, o Hangul (alfabeto coreano que  possui  24 letras, sendo  10 vogais e  14 consoantes ) em que entendi e aprendi a sua pronúncia e escrita, que não é sequencialmente  como  no português, mas sim, em “blocos” silabários, por isso ao contrário do chinês não é ideograma (unidades que em sua maioria carregam em sua forma um significado próprio, sem a necessidade de combiná-las com outras para formar uma única ideia) mas sim, um alfabeto em que letras são juntadas para formar um som.

VIDA BILÍNGUE: A língua coreana tem estrutura muito diferente do português ou inglês?

Sirleide Vieira: O coreano é um idioma muito peculiar e curioso, e ao aprendê-lo a impressão que se pode ter é “parece coisa de outro mundo” e/ou ainda “quão fascinante esse novo mundo que se abre a mim, pode parecer”, e tudo dependerá de como será esse primeiro contato com a  língua. Então, é certo que se comparado com a língua portuguesa, sim, causará estranhamento, porque a estrutura é muito diferente da nossa língua materna. O primeiro  choque é o próprio alfabeto, que é totalmente diferente do qual me acostumei a lidar a vida toda desde a minha alfabetização que é o alfabeto romano, o mesmo usado no inglês e em todos os idiomas de origem Latina e anglo saxônica.  Mas é mais fácil do que parece, ao menos o domínio do alfabeto, o hangul. Fora isso, é se permitir sair da caixinha e desconstruir os padrões determinados de pensamento e conhecimento da sua língua materna. No coreano uma frase simples tem como estrutura o Sujeito + Objeto + Verbo ( Eu Aluna Sou) você fala como se fosse o Mestre Yoda (personagem da série Star Wars) ao contrário da língua portuguesa em que a ordem de uma frase simples é  Sujeito+Verbo+Objeto (Eu Sou Aluna). O verbo será o elemento mais importante, se não o principal, dentro da escrita coreana. Por ser um idioma aglutinado, será normal os verbos terem agregados a eles sufixos ou prefixos que expressam o tempo a que ele pertence. Além disso, há o uso de partículas que acompanham outras palavras a fim de identificá – las como sujeito ou objeto dentro de uma oração (isso é algo que não existe em português, espanhol ou inglês). Fora isso, a fonética e o vocabulário coreano é completamente diferente algumas palavras são de origem chinesa, por conta do domínio do país sobre a Coréia; outras palavras surgiram com a abertura do país para o sistema capitalista que é denominado como  konglish (que são palavras em inglês que foram incorporadas à língua coreana) algumas poucas palavras que são do latim como a palavra “빵” que significa pão e tem uma pronúncia similar ao do português, é uma influência direta do idioma japonês o qual a origem da palavra vem diretamente do português também.

VIDA BILÍNGUE: Qual é o seu objetivo com a língua no futuro?

Sirleide Vieira: É engraçado, se antes minha intenção era conseguir ver k-dramas sem o auxílio de legenda, hoje sinto que meus objetivos se tornaram mais ambiciosos, por assim dizer, a meta assim como no inglês, é uma imersão cada vez maior no idioma, através de conteúdo auditivo e leitura, ou seja, me expor mais à língua conseguindo aumentar o número de tempo que passarei escutando o idioma estudado, para assim, tornar algo natural o pensar no idioma. Para alcançar esse objetivo de longo prazo,  tenho que todos os dias, cada vez mais, me expor ao idioma, ficando mais  tempo ouvindo ele; seja por meio de filmes, séries, programas, podcasts ou praticando leitura. A médio prazo pretendo realizar o exame de proficiência e quem sabe um intercâmbio de férias; e a curto prazo o  objetivo é ser mais corajosa e me jogar mais na  tentativa de falar o idioma para  destravar a língua até a conclusão dele,  que pode levar o tempo que precisar levar,  já que é lá que sou desafiada a falar e responder o que sou questionada no idioma.

VIDA BILÍNGUE: Fora das aulas, quais tipos de treino você faz para praticar o coreano?

Sirleide Vieira: Bem, eu acho que não foge muito da minha prática do que foi quando eu aprendi espanhol e nem agora enquanto aprendo inglês. As duas  diferenças é que  hoje  faço ambos os  cursos sozinha,  porque   espanhol fiz com minha  irmã então eu praticava o tempo todo com ela. Hoje, para otimizar meu tempo, eu tento seguir  um cronograma de estudo, mas  só tento, porque na  prática  nem sempre consigo.  Eu tento imergir o máximo possível nas línguas que estou aprendendo, então, fora das minhas aulas eu faço todos os exercícios que são propostos pelos professores. No coreano eu tenho uma colega de sala e uma vez por semana nos encontramos para  fazer prática de leitura  e compreensão auditiva. Faço uso de um aplicativo de flash cards, para memorização e prática de pronúncia do vocabulário novo apresentado em cada unidade; memorização de vocabulário é meu tendão de Aquiles em ambos os  idiomas.  Também, tento revisar o conteúdo aprendido na semana, nem que seja por dez minutos já que minha concentração desfoca rapidamente. Entendi a duras custas que quando se trata de aprender um idioma, se considerarmos um hiato para retomada de estudo, constância é mais importante do que tempo dedicado. Esse semestre, não  consegui ser tão disciplinada e organizada com meus planos de estudos, mas já é algo que   retomarei com força  total no próximo semestre.

VIDA BILÍNGUE: Que dicas você daria para as pessoas que têm interesse em iniciar os estudos na língua coreana?

Sirleide Vieira: Especificamente para o coreano deixo duas dicas: a primeira é pratique a escrita, pois é praticando que se chega à perfeição ou ao menos automatiza a escrita; e segundo, não faça uso da romanização, ou seja nada de usar o alfabeto romano para representar na escrita o som do hangul, isso gera vícios e dificulta a aprendizagem do coreano quando se acostuma com o uso. Para quem é brasileiro, a romanização, ao invés de ajudar, atrapalha na pronúncia verdadeira, já que é baseada na pronúncia de falantes do idioma Inglês. Agora, de um modo geral, a dica que  dou é: seja  para estudar coreano ou qualquer outro idioma que queira aprender, por motivo profissional ou para ampliar os horizontes e mergulhar numa nova cultura, o principal é não desanimar, muitas  vezes  dá vontade de  desistir. Houve muitos momentos em que me perguntei “por que estou estudando isso? Não seria melhor  desistir já que a evolução foi tão pequena?” e aí vêm  algumas respostas na minha cabeça  “Eu estudo esse  idioma porque eu quero, eu  escolhi e decidi estudá-lo,  mesmo sabendo que ele é  6º idioma  de maior dificuldade de aprendizado , mesmo ele sendo tão diferente da minha língua materna, ele me estimula a me dedicar ainda mais no estudo do inglês, então o que posso fazer é me empenhar e não desistir” Eu sei que essas perguntas surgem quando começo a pensar que meu rendimento no estudo não está sendo proveitoso e minha aprendizagem lenta, mas também, sei que  essas cobranças  ocorrem justamente  por que vivemos  em uma sociedade em que se se vive o imediatismo e bem, aprender uma nova língua, principalmente depois de adulto com uma  rotina puxada, não se faz num passe de mágica e nem tem uma receita de  bolo pra isso, pelo contrário,  é 99% por cento dedicação. Se você quer aprender um idioma novo, então se desafie, se  permita errar, porque se aprende muito com os erros, aceite que você aprenderá no seu tempo, por isso, sem tanta cobrança ou pressa e seja mais  gentil  consigo. Não se esqueça de comemorar as pequenas conquistas porque, na verdade, esses pequenos passos somados fazem uma longa jornada. Não dá para vencer se ficar pensando  apenas no resultado de dominar um idioma e  esquecer que  para fazer o primeiro percurso  é necessário dar o primeiro passo, não ajuda a evoluir no aprendizado, ainda que  pequeno o passo ele é primordial para gerar a caminhada inteira do percurso  percorrido, e quando chegar o momento de olhar para  trás  você falará “Nossa esse foi o caminho que  percorri? Eu sei tudo isso ? Foi tudo isso que aprendi ?” por que a real é isso, a gente nunca  para pra pensar o quanto evoluímos e sempre minimizamos as nossas conquistas e o que galgamos. Consideramos que não sabemos  muito do idioma e não achamos que é muita  ou grande  coisa tudo isso, sendo que  todo esse conhecimento acumulado na hora da necessidade fará toda a diferença. E sim, eu não mentirei, afinal toda língua tem suas dificuldades, e também sim, coreano é uma língua muito difícil, mas também  é extremamente deliciosa,  é desafiador aprendê-la e no fim é isso que importa, somos movidos a desafios que possam nos transformar como pessoas e a busca pelo conhecimento de algo novo sempre nos possibilita isso . Então como dizem os coreanos para dar ânimo  ‘파이팅!” ou seja “Vá em frente!”

Denise Domingues é jornalista, graduada em História

e atua como English teacher desde 2005.

Está no mercado como profissional independente desde 2011.

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