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Meia 92

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Coluna de Cultura – Vidas negras importam?

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Kwame Yonatan Poli dos Santos
Congresso de Cartagena 2023

O portal meia92 conversou com o psicanalista Kwame Yonatan Poli dos Santos, graduado em Psicologia pela Unesp-SP, mestre e doutor pela USP. Ele acaba de publicar o livro Por um fio: uma escuta das diásporas pulsionais, editado pela Calligraphie Editora. O psicanalista atua como supervisor institucional de profissionais do SUS e do SUAS. É professor no Instituto Gerar e compõe o Coletivo Margens Clínicas, grupo de psicanalistas e psicólogas que atuam no enfretamento à violência do Estado. Recentemente, participou da 53ª edição da IPA, em Cartagena, na Colômbia, que, pela primeira vez, contou com um painel que discutiu questões ligadas às relações raciais e psicanálise: Os efeitos da escravidão no Ocidente.

Meia92 – O seu livro é fruto da escuta clínica em consultórios, nas políticas públicas e no coletivo margens clínicas. O que essa escuta causou ao analista ao se deparar com pessoas por um fio e ao encontrar-se com esses casos-limites?

R: Tive que reformular minha clínica, buscar leitura de autoras e autores que não estão nos cânones da psicanálise,  como Fanon, Lélia, bell hooks,  para que pudesse de fato estar a altura daquilo que estava sendo dito. Portanto, além de estudar a psicanálise de Freud a Lacan, vi-me diante de uma tarefa ética, logo clínica,  de buscar outras alianças para que eu pudesse me aproximar daquele sofrimento que se apresentava na clínica.

Meia92 – O que você poderia nos falar sobre o mal-estar na colonialidade e a violência de Estado performada repetidas vezes nas periferias brasileiras pela polícia militar?

R: O mal-estar colonial pode muitas vezes ser sentido a partir das histórias de violência silenciados dentro das famílias interraciais , por exemplo,  muitas pessoas ao ser perguntado sobre a raciliadade, contam sobre a avó indígena que foi pega no laço, porém não sabem qual a comunidade e nada mais dessa parente distante.  Isso é a história do Brasil, um estupro visando o embranquecimento,  ou seja, o apagamento das raízes negras e indígenas. Tal apagamento dessas violências retorna como mal-estar nas discussões sobre relações raciais.

Nesse sentido, Fanon nos ensina em “Pele negra, máscaras brancas “ que a estrutura familiar possui uma estreita relação com a estrutura do Estado seja pelo patriarcado, seja pela racismo em que a punição desses “filhos bastardos” (negros e indígenas) é a bala; mas não só quando pensamos em enfrentamento da Violência de Estado, a violência colonial, falamos que descolonização é um fenômeno violento pois é o rompimento com essas estruturas, a destruição delas.

Meia92 – O racismo no Brasil ainda é tratado como matéria de interpretação? Há distinção entre racismo como verdade e como mera opinião?

R: A concepção do racismo estrutural visa exatamente a visibilização da dimensão da desigualdade racial construída historicamente e pode ser evidenciada em qualquer estatística sobre evasão escolar, mortalidade infantil, violência doméstica etc.

Meia92 – Como ressalta a psicóloga Cida Bento, há um silenciamento sobre o racismo estruturante, mantido por um pacto narcísico da branquitude que rege a maioria das instituições. Você aponta no seu livro que há uma escuta com olhar do silêncio sobre as relações raciais nas instituições e que isso se dá em várias camadas. Como se verifica isso?

R: Quando perguntamos nas instituições da rede socioassistencial sobre como se fala de relações raciais,  a resposta é unânime: não se fala!

O silêncio nos equipamentos de saúde,  assistência social,  educação e justiça é resultado dessa pactuação em que se   mantém silenciosamente a situação colonial mesmo diante do tensionamento de uma maioria de servidores públicos brancos atendendo marjoritariamente uma população negra sem querer olhar para como essa dimensão impacta na sua atuação.

Meia92 – Por que o conceito de aquilombamento precisa ser compreendido? O que significa aquilombar-se?

R: Existem várias definições do que seria aquilombamento, falarei de duas  e atrelarei com a sua importância.

Primeiro, entendemos aquilombamento como uma reorientação ética, o necessário deslocamento diante da fantasia colonial forjada pelo mito da democracia racial que conta que o Brasil nasce da harmonia entre as três raças: o negro, o branco e o indígena. Nunca houve essa paz, sempre houve conflitos pois tentou-se subjugar os povos negros e indígenas e estes responderam re-xistindo, isto é, afirmando sua existência seja por meio das religiões de matriz africana, seja pela transmissão de perspectivas sobre território e luta pela terra etc. Beatriz Nascimento, umas das nossas referências no estudo sobre aquilombamento, nos ensina onde houver um traço vital negro ou indígena, haverá um quilombo.

O que nos leva a segunda definição, o quilombo é um muro sem os muros coloniais, para que isso ocorra é preciso acontecer a demarcação de terras indígenas, a reforma agrária etc.

Meia92 – O primeiro psicanalista a falar dos privilégios dos brancos foi Freud, no texto “O inconsciente”. Na clínica psicanalítica, segundo o psicanalista Thamy Ayouch, “só escutamos na encruzilhada”, uma vez que ela mira o dizer que ex-siste ao dito. Pensando nesses dois apontamentos, como escutar a partir da descolonização da clínica? Como escutar, a partir dos marcadores sociais (de classe, raça e gênero)? E, por fim, o inconsciente tem cor?

R: O psicanalista Thamy Ayouch nos aponta uma direção clínica importante, é preciso reconhecer a importância das estruturas de opressão dos marcadores socias de diferença porém sem essencializar os efeitos das mesma, possibilitando uma escuto no singular, no “um a um”. Então, escutar com o olhar a cor do inconsciente passa por reconhecer as marcas do racismo que se inscrevem singularmente de forma inconsciente enquanto discurso, tal qual nos ensina  a psicanalista Isildinha Baptista.

Meia92 – Se diagnosticar é avaliar, como tecer outros critérios diagnósticos a partir da ética ou como você mesmo diz no seu livro a partir dos fios éticos?

R: Ampliando-se a noção de diagnóstico para além da psiquiatria, isto é, um diagnóstico ético é próximo da ideia fanoniana de sociogênese em que consideramos singularmente como as violências estruturais produziram determinados sintomas, não para desresponsabilizar, ou pior, hiperresponsabilizá-lo, mas compreender que estas sucessivas violências deixam sequelas, logo, diagnosticar eticamente é compreender quais dispositivos compõe aquele determinado caso e como a clínica pode atuar na singularização diante daqueles.

Meia92 – A clínica é indissociável da política?

R: Sem dúvida, acredito que a tentativa de dissociar a clínica da política uma falha ética, um gesto profundamente avesso a proposta psicanalítica freudiana que sempre pensou o sujeito como sendo constituído dentro de um campo de relações de poder, um exemplo é a constituição profundamente política do “super eu”, como seria pensar essa instância fora da política, de um campo de negociações?

Meia92 – Na clínica, é por meio do sintoma e do sofrimento que é possível recolocar o sujeito nos seus próprios processos de subjetivação. Você propõe “escutar com o olhar”. O que isso significa?

R: Freud nos ensina que a vida psíquica é praça e campo de batalha para tendências opostas, desse modo, o sintoma é uma solução de compromisso. Ao meu ver, o trabalho da clínica, é “transver” como da expressão conflitualidade psíquica, parafraseando as palavras da psicanalista Suely Rolnik e Félix Guattari,  é preciso escutar com o olhar o traçado do sintoma para saber se ele pode nos indicar novos universos de referência.

Meia92– O que significa ser branco em uma sociedade em que grande parte do mundo é racializado (indiano, africano, asiáticos etc)? E em que momento raça foi uma questão em sua vida?

R: Na cartografia cultural vigente, ser branco tem sido uma experiência de alienação, pois a sociedade compreende que tal particularidade é sinônimo de neutralidade, normalidade, é o “sujeito zero”, como diz Denise Ferreira da Silva, um marco do qual o resto do mundo seria decorrente.

A minha experiência de me descobrir negro, tal qual a maioria da população negra, é “cotidiária”, passa por uma ressignificação constante sobre estar num mundo branco e a necessária singularização diante desses atravessamentos.

Meia92 – E para finalizar: a clínica poderia ser um dispositivo de descolonização?

R: A clínica pode ser um dispositivo de descolonização desde que ela passe por um banho do Real, desloque-se da fantasia colonial e x analista se pergunte desde onde tem realizado o trabalho de escuta? Sob quais referenciais o trabalho clínico tem se dado?

Disponível em www.calligraphieeditora.com.br

 

Patrizia Corsetto é jornalista, radialista e psicanalista e

assina a coluna de cultura semanalmente

Foto: Divulgação

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