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sábado, 2 de março de 2024

Barbie: nunca te tive, mas já te amo!

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Nunca tive uma Barbie ou Ken. Sou filha única que cresceu em um condomínio brincando com meninos, ou seja, com os Ken. Eu os liderava! Isto posto, não fui assistir ao filme para ter um déjà-vu ou saber qual Barbie tive na infância.

Confesso que fui ao cinema sem a menor expectativa. O convite de uma amiga psicanalista e a possibilidade de nos reunirmos após o filme para debatê-lo foi o que me moveu. Fomos em seis amigas, todas psicanalistas. Ou seja, “cineminha cazamigas”! A grande polêmica que o filme vem rendendo também foi um disparador. Por que Barbie está  incomodando tanto? Para que as impressões sobre o filme pudessem ir além da discussão empobrecida “meninas vestem rosa” e “meninos vestem azul” ou da paixão cega de um FlaxFlu, lá fomos nós!

Escolhemos o Cine Sesc para a empreitada – onde não havia a famosa caixa da Barbie na qual é possível entrar e tirar fotos nem expectadoras e expectadores de rosa – pois optamos pela rica experiência que o cinema proporciona. Como diz o psicanalista Diego Penha, especializado em cinema, estar em uma sala de cinema proporciona uma experiência coletiva.  “Não existe uma pequena sensação de que entramos em uma sessão cercados de desconhecidos e saímos com alguns cúmplices? Talvez seja porque entramos estranhos uns aos outros, e saímos com uma experiência em comum“, observa.

Vale ressaltar também a determinação de Graziela Marcheti, coordenadora de programação do Cine Sesc – sala de cinema que tem a tradição de promover excelentes debates após a exibição de filmes – de bancar a exibição do longa da diretora Greta Gerwig, ainda que isso fuja a muitas expectativas. “Tenho a clara impressão que, se o filme da Barbie não abordasse questões de gênero, a partir de uma boneca com crise existencial, se fosse só mais uma baboseira da Marvel, muita gente “crítica” estaria agora em paz. E, claro, de preferência, que o filme fizesse o sucesso desde que não fosse de uma mulher”, ressalta Marcheti.

Mas quem é Greta Gerwig? Atriz, roteirista e diretora norte-americana que faz parte do movimento cinematográfico Mumblecore – filmes feitos com baixíssimo orçamento e que privilegia os diálogos. Porém, certamente, depois de Barbie, o orçamento para novas produções estará garantido.

O  filme estreou no dia 21 de julho e até agora é o maior sucesso de bilheteria de fim de semana de estreia do ano nos Estados Unidos e Canadá, arrecadando U$ 155 milhões (aproximadamente R$ 740 milhões). No Brasil, R$ 22 milhões arrecadados na estreia e um público de 1,2 milhão de expectadores. Quando o leitor estiver lendo este texto, os números já serão outros. Enquanto isso, “Oppenheimer” — também lançado na semana passada — arrecadou US$ 93,7 milhões (cerca de R$ 447 milhões) nos Estados Unidos.

 Até no mundo cor de rosa a coisa pode ficar preta!

Fato é que, Barbie é impecável esteticamente – no começo requer uma acomodação dos olhos às imagens carregadas de rosa, que chegam até a causar incômodo – é divertido, leve, sarcástico, irônico e conta com uma trilha sonora impecável, de Nicki Minaj, Lizzo, Karol G, Haim e Dua Lipa, que também atua como a Barbie Sereia. A grande sacada é que o expectador é convidado a entrar no filme, ou melhor, na Barbieland, através da interjeição “Hi, Barbie!”, repetida à exaustão. Aviso aos desatentos, em Barbie nada é aleatório.

 

Difícil escolher um único tema para explanar em um filme que conta com tantas camadas. O patriarcado – significante repetido à exaustão no filme – talvez, seja o eixo principal que ancora as não menos importantes questões sobre feminismos, feminilidade, maternidade, objetificação da mulher, masculinidades, capitalismo, gênero, sexualidade.

A primeira cena do filme causou mal-estar em muitos expectadores. Usada como teaser do longa-metragem e disponível no Youtube bem antes do lançamento, foi alvo, inclusive, do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) por expor crianças e ser considerada violenta.

A cena mostra o que o aparecimento de Barbie causou no mercado de brinquedos e na forma de brincar das meninas. Se antes, as meninas eram mães de suas bebês, Barbie acena com a possibilidade de a mulher poder ser o que quiser – médica, presidenta, bombeira, engenheira, vencedora do prêmio Nobel – além de ter sua própria casa e carro. Aqui, vale um “parênteses” para  ressaltar que Malala Yousafzai, ganhadora do prêmio Nobel, foi assistir ao filme com o marido. Na foto postada em seu instagram, dentro da caixa da Barbie, a seguinte legenda: “Esta Barbie tem um prêmio Nobel. Ele é somente o Ken”. No artigo, Por que Barbie deve ser punida, de Leslie Jamison, publicado no The Week Essay, a autora vai relacionar a Barbie com a ideia de objeto transacional de Winnicott, sendo um objeto de transição da fantasia do que a criança pode desejar ser.

Frente a essa descoberta, meninas quebram suas bebês, batendo a cabeça das bonecas repetidas vezes no chão, quando se deparam perplexas com a figura gigante, linda e perfeita da Barbie, interpretada por Margot Robbie. A cena faz referência à icônica cena de 2001: Uma odisseia no espaço, filme de Stanley Kubric.

Barbie entre o desejo e o impulso

No reino da Barbieland tudo funciona com a precisão de um relógio suíço. A Barbie esteriotipada, de Margot Robbie, personifica a mulher perfeita, a mulher ideal que, aliás, não existe no mundo real.

O mundo imaginário – Barbieland – chega a ser monótono, pois tudo acontece da mesma forma todos os dias. Do amanhecer ao anoitecer. Até que Barbie, literalmente, cai do salto, e tudo muda.

Vemos uma boneca fragilizada e apavorada, com pés chatos e celulite e pensamentos ligados à morte (pois, é a morte que humaniza), que se vê obrigada a recorrer à única boneca que pode ajudá-la: a Barbie Estranha, que tem a força de fazer a revolução acontecer, justamente, pela sua imperfeição.

Com a cara riscada, o cabelo cortado de forma nada simétrica e com as pernas em espacate, a Barbie Estranha (Kate MacKinnon) ficou desse jeito depois que uma criança “brincou demais” com ela. Essa criança é, segundo o flashback que nos é mostrado no longa, a própria Gloria, a personagem humana e latina de America Ferrera.

Como a única maneira de Barbie voltar a ser “perfeita” é encontrar sua “dona”, Barbie se lança na incursão ao mundo real, mas já “afetada” pelos afetos, pois ela começa a chorar, a experimentar sentimentos e sensações demasiadamente humanos. Interessante que a conexão entre os dois mundos se dá através de uma fenda (abertura estreita e alongada surgida acidentalmente ou feita de maneira proposital).

Acompanhada de Ken (Ryan Gosling), ao chegar ao mundo real, Barbie se depara com todos os problemas que uma mulher enfrenta. Dá de cara com a lógica capitalista e a opressão que o patriarcado imprime às mulheres. Surpresa, percebe que o mundo é dominado pelos homens. E se pergunta: “Então, tudo que fizemos não valeu de nada?”.

Mais surpreso ainda fica Ken, ao perceber que sempre esteve sob o jugo das mulheres na Barbieland e que no mundo real o patriarcado impera. Ken, caracterizado pela sua falta, inclusive de genitália, sempre ofuscado pela Barbie e em posição de coadjuvância. Barbie tem tudo, enquanto Ken – sorridente e prestativo – é aquele que segura sua bolsa.

De volta à Barbieland, Ken vai deixar de ser o “bom moço”, que vive à sombra de Barbie, e assume por algum tempo “ares de vilão”. Leva consigo, em seu retorno, todos os estereótipos da masculinidade: a adoração por cavalos e por cerveja, por exemplo, e a disputa física para saber quem é o “melhor” entre os Ken.

Ken ao dominar a Barbieland, surge com novo visual, casaco de pele, vestimenta bastante apreciada pelos rappers americanos, sem camisa, tênis de cano alto e vários cordões adornando o peito nu. É só lembrar a frase dita pelo rapper americano, Kanye West, ao ser questionado sobre o porquê usa casaco de pele: “sou uma estrela, uma celebridade”. Esta mudança de paradigma ancorada pela moda, traz um Ken viril e potente, ainda que a personagem continue com um discurso empobrecido.

Antes do retorno de Barbie ao mundo da fantasia, merecem destaque três cenas. A visita à Mattel, maior fabricante de brinquedos do mundo e criadora da boneca. Lá, ela se depara com um mundo corporativo totalmente dominado por homens em importantes cargos de gestão, onde cabe à mulher o papel de recepcionista e secretária.

É impagável a tentativa dos executivos em prendê-la novamente em sua caixa. Ao ter os pulsos amarrados, a boneca se rebela e foge. Barbie não quer mais ser aprisionada, tampouco as mulheres o querem. Um convite também a “pensar fora da caixa” ou como diz Gloria Groove:

A bonequinha tá cheia de graça,

Ela não brinca, ela pirraça

Ela é zika, ela esculacha

A bonequinha tá fora da caixa

Outro ponto relevante no filme é o encontro com a sua “dona” Gloria, uma mulher aprisionada pelos seus pensamentos, ávida por viver aventuras e às voltas com a filha adolescente que não mais quer estar com a mãe, mas sim busca seu pertencimento a uma turma.

A partir do momento em que Barbie consegue ter uma conexão com Gloria se estabelece aí, a possibilidade de laço social e a constituição de afetos e as paixões do ser (amor, ódio e ignorância).

E, por fim, o encontro com a sua criadora, Ruth Handler, esquecida em uma sala do imponente edifício, ainda na sede da Mattel.

A lógica capitalista emoldura o filme o tempo todo, a ponto da Mattel rir de si mesma e se permitir ser “zoada” no filme, pois a boneca que custava U$ 3 quando foi lançada em 1959, hoje, virou um conceito, uma marca, deixando o mundo cada vez mais rosa: indo do croacs rosa com a marca da Barbie, passando por uma linha de sabonetes e escovas de dente elétricas, à experiência de poder passar uma noite na casa de sonhos da Barbie, em Malibu, que conta com piscina de borda infinita e duas pistas de dança, e que pode ser alugada pelo Airbnb.

De volta ao começo

De volta à Barbieland, acompanhada de Gloria e sua filha, tudo está diferente. Ken deu um “golpe” na Barbieland, qualquer semelhança é mera coincidência, ou não, se pensarmos em fatos políticos como a invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, ou os ataques de 8 de janeiro, no Brasil. Ainda assim Barbie tem pena de Ken e leva um chacoalhão da amiga: “Ele rouba a sua casa, as suas amigas e você chora por ele?” Nesse momento, ela se dá conta que nem o ama para estar triste em perdê-lo. Aí, reside a atualidade do filme, que mostra com lente de aumento, questões contemporâneas.

Retomada a normalidade na Barbieland fica a mensagem de que a mulher ideal não existe, que o homem está às voltas com a sua masculinidade e que cabe à nossa geração pavimentar o caminho desses questionamentos às futuras gerações, cá para nós, bem mais livres de tantas amarras. Ken se dá conta que também não precisa ser a sombra de Barbie e que não precisa existir a partir do olhar dela. Ele deve encontrar a sua própria maneira de estar no mundo.

Barbie decide ao final, viver no mundo real, que não é cor de rosa. A última cena, já dando spoiler, mostra Barbie saindo do carro onde estão Gloria, a filha e o marido e todos desejam a ela boa sorte. Os desavisados pensam que Barbie vai se submeter a uma entrevista de emprego, mas na verdade, ela vai ao ginecologista!

Fica uma pergunta: é preciso ter vagina para ser mulher? Um convite a pensar com o aforismo de Lacan, “A mulher não existe”, ou ainda com Beauvoir, “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Se para Freud, a mulher só se realiza na maternidade, apontada por ele como uma saída para a feminilidade, para Lacan, a maternidade não responde, pelo menos, não totalmente, ao enigma do que é ser uma mulher.

Bom…seguimos no debate!

Barbie faz pensar! E quando entretenimento se propõe a isso, é porque já valeu a pena! Arrisco ainda a dizer, que saímos do cinema muito mais cúmplices!

Patrizia Corsetto é jornalista, radialista e psicanalista e

assina a coluna de cultura semanalmente.

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