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sábado, 15 de junho de 2024

Lançamento do Livro: Por um Fio – Uma escuta das diásporas pulsionais

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Por um fio e sobre o fio:

é preciso equilibrar-se sobre a corda ao mesmo tempo em que se ergue a voz

 

Rosane Borges*

O livro do psicanalista Kwame Yonatan Poli dos Santos, Por um fio: uma escuta das diásporas pulsionais, indica, no próprio título, a grandeza e a miséria do percurso do funâmbulo, aquele que tem que se equilibrar sobre o fio fino da existência e, assim, reelaborar um modo de vida que supõe a manufatura de outra subjetividade. Essa tarefa não é fácil porque além de nos exigir a qualidade dos bons equilibristas, supõe fazer a travessia sobre as cinzas, ainda fumegantes, do incêndio que dizimou milhares de etnias: a colonialidade.

Fio, incêndio, voz, escuta e mergulho são algumas das palavras que compõem reiteradamente a tessitura do texto de Kwame dos Santos não como mero recurso retórico, mas como suporte para se desobstruir, na letra do autor, os processos vitais que foram intoxicados pela poluição colonial. São, portanto, expressões que demandam atenção e reclamam por desdobramentos que se aproximem de uma poética, apesar de tudo. O filósofo Didi-Huberman afirma categoricamente que é preciso imaginar, narrar, apesar de tudo. Transformar lugar de barbárie em lugar de cultura. Comecemos sobre o fio, por um fio.

É ainda Georges Didi-Huberman quem nos oferece um dos textos contemporâneos mais lindos sobre o fio.  Interrogando o lugar da obra-prima no mundo da arte, o filósofo e historiador defende que “a obra-prima funciona como uma experiência dos limites: ou seja, uma experimentação, constantemente relançada, sobre as próprias possibilidades da obra” e considera que “o artista só pode ser soberano sobre o fio”. Ainda segundo  Didi-Huberman:

o fio é algo muito simples: apenas uma linha no espaço. Mas é também algo de muito complexo: um novelo, um emaranhado. O fio sustenta a estrutura (teia de aranha, cordame, rede de ligaduras), mas pode também se desfiar e, de repente, se romper. Ele se junta (fiação, malha) ou se alinhava (laço, franja, trança). Ele traça um destino (as Parcas), nos aprisiona (amarras, laços) ou se divide em quatro (racionalizações, argúcias, subterfúgios). Guia-nos para o melhor (Ariadne, curso d’água) ou nos extravia para o pior (cipós, cardos). O fio liga, encadeia e dá curso Ou, ao contrário, corta, afia, amola e faz romper. O fio está sempre por um fio. Essa é sua beleza – seu belo risco – e sua fragilidade. Daí que a noção de soberania se mantenha ela própria sobre o fio, como essa figura funambulesca que encontramos, antes do filme de Steve McQueen, num admirável texto de Jean Genet em que o dançarino de corda servia de parábola ao duplo status – soberania, impoder – do artista em geral. (2012, p. 32).

Na trilha do funâmbulo de Didi-Huberman, é preciso que se dance sobre a corda, para não se cair das alturas,  visando  um retorno à superfície do mundo, livre das ruínas do incêndio criminoso que não cessa. Tal retorno solicita uma outra tarefa que é a de erguer a voz, gesto que certifica a nossa presença viva no mundo desde o nascimento.

Embora para a maioria das pessoas a voz se manifeste logo quando irrompe corporalmente no mundo (Kwame lembra que o grito é o primeiro fio da nossa existência), torna-se urgência política e imperativo ético a busca da voz –  enquanto caminhamos sobre o fio, por um fio –   para que seja feita “a transição do silêncio à fala, como um gesto revolucionário” (hooks, 2020, p. 45):

Mais uma vez, a ideia de encontrar uma voz ou ter uma voz assume primazia na fala, no discurso, na escrita e na ação. Como metáfora de autotransformação, isso tem sido especialmente relevante para grupos de mulheres que previamente nunca haviam tido uma voz pública, mulheres que estão falando e escrevendo pela primeira vez, incluindo muitas mulheres não brancas.  (2020, p. 45).

Mas, advirta-se: não se trata de uma fala e enunciados quaisquer. Erguer a voz e a escuta sobre a colonialidade supõe um ritual de passagem que, conforme bell hooks, implica desertar da condição de objeto e procurar abrigo no status de sujeitas em prol de outra subjetividade. Não é fortuita a afirmação de Kwame, na trilha de Jacques Lacan, que erguer a voz “é um exercício clínico, da ordem da enunciação, que visa devolver dignidade à fala”.

Se a proposição é para a linguagem o que a representação é para o pensamento, como lembrou Michel Foucault, “o que erige a palavra como palavra e a ergue acima dos gritos e dos ruídos [e no caso em tela do incêndio e das ruínas] é a proposição nela oculta”, o que nos permite pensar, enquanto nos equilibramos sobre o fio, que erguer a voz supõe escuta, e escutar é uma decisão política.

Em sendo uma obra que faz um mergulho psicanalítico (na verdade, três), não nos enganemos quanto à voz-escuta proposta por Kwame, dobradinha que é cara ao exercício da psicanálise. Apagar o incêndio colonial (que até hoje apresenta  uma força diamantina, há que se dizer) não significa dar voz ou escutar os terrivelmente outros do mundo, tampouco agir de modo compassivo para restaurar o que o fogo destruiu ou chamuscou.

Ao par voz-escuta, Por um fio: uma escuta das diásporas pulsionais acrescenta o silêncio, instituindo, assim, uma tríade. O transbordamento do par só é possível porque a indiferença e a ausência de implicação das pessoas brancas, movidas pela “boa consciência antirracista”, imperam no reino do silêncio, subscritas pelo pacto da branquitude.

Os mergulhos que Kwame opera, enquanto se equilibra sobre a corda, ocorrem em três frentes que nos possibilitam puxar os fios da desgraça genocida. Ao puxar os fios do acontecimento desse novelo emaranhado, nos damos conta que o delírio racial deita raízes em tempos remotos, cujo perfil ganha novos contornos no século XXI, com a ascensão do fascismo da cor, conforme sentencia Muniz Sodré em seu mais novo livro. Para Sodré: “no início da terceira década do século XXI, a questão racial irrompe no mundo como um tópico de primeiro plano e não mais como mera ‘contradição secundária’ conforme diagnosticava uma histórica linha de pensamento, segundo a qual a relação de classe, principalmente aferida pela estrutura socioeconômica, esgotaria as relações caracterizadas como ‘raciais’ “. (2023, p. 7).

O livro de Kwame é, assim também, um livro anticapitalista porque bebe indiretamente  do poço argumentativo de Sodré; em ambos os autores verificamos um crítica ao capital sem cair na generalização de que que tudo é epifenômeno do capitalismo (embora ele condicione tudo), pois raça é central na vida política e social do planeta e pavimentou o terreno para que a lógica de extração capitalista ganhasse poderosa tração.

O dispositivo colonial-escravocrata, que Kwame se esforça para desativar,  dialoga com a construção do sujeito global, histórico e moderno tão bem dissecado pela filósofa Denise Ferreira da Silva, que nos propõe uma analítica da racialidade, e com o dispositivo de racialidade, da também filósofa e feminista negra Sueli Carneiro, para quem a construção do outro como não ser deu fundamento do ser.

Sobre o fio, num jogo de corporalidade (ser equilibrista é isso), Kwame dos Santos vai cortando o sentido da fibra que dá espessura ao dispositivo colonial-escravocrata, seguindo o fio dos pensamentos emancipatórios e libertários, embaraçando tantos outros fios que se oferecem para apagar o incêndio, encontrando fios condutores capazes de promover outro laço social por meio da voz que se ergue sobre a colonialidade, denunciando o lixo ocidental, este sim merecedor de que entre em combustão.

Provavelmente, sobre as cinzas desse lixo poderemos escutar a palavra enunciada desde a travessia do Atlântico. Se, como lembrou a pensadora e feminista negra Lélia Gonzalez, “agora o lixo vai falar e numa boa”, é preciso dar a quem foi convertido em lixo da sociedade (os terrivelmente outros do mundo) a dignidade da fala, como também se faz imperioso que tal fala alcance nossos ouvidos para que outra dimensão da experiência se instale, tanto para os colonizados quanto para os colonizadores, os dominados e dominadores, brancos e não-brancos. A  psicanálise nos devia o gesto que este livro instaura e fundamenta por meio de uma travessia sobre um fio fino que rompe os silêncios produzidos na e pela área no que diz respeito às dinâmicas dispositivo colonial-escravocrata que constituiu a barbárie civilizada.

*Jornalista, escritora e  professora do Diversitas (FFLCH-USP).

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