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sábado, 2 de março de 2024

VIDA BILÍNGUE – Quem domina Libras também é bilíngue

Denise

Olhar para a nossa sociedade contemporânea nos traz muitos desalentos. São tantos os problemas, as dificuldades, os conflitos, há muito ainda para se aprender, conquistar e avançar. Mas retroagir o olhar para os tempos passados nos faz crer que sim, mesmo a duras penas nossa sociedade tem conseguido consideráveis progressos civilizatórios.

A libras é um desses avanços. Libras – Linguagem brasileira de sinais – é uma conquista super importante de nossa sociedade, que permite a inserção de pessoas com deficiência auditiva no processo de comunicação. Hoje é mais comum – ainda que requeira avanços – a tradução de programas, palestras, espetáculos, discursos para libras. E esta é uma ação que, além de comunicar, promove a inserção de pessoas com deficiência auditiva no universo da cultura, da compreensão dos mais diversos contextos informativos. Oferece a quem necessita dessa ferramenta para se comunicar o direito à participação ativa nos mais diversos processos comunicativos.

Talvez você não saiba, mas libras não é uma linguagem universal para auxiliar na comunicação de qualquer pessoa que possua deficiência auditiva no mundo. Libras é brasileira, ou seja, é um sistema de comunicação desenvolvido especialmente para o brasileiro. A língua de sinais não nasceu no Brasil, mas libras é uma adaptação para o Brasil, um misto da língua de sinais desenvolvida na França por Ernest Huet e da linguagem gestual que foi se desenvolvendo informalmente para esse tipo de comunicação aqui no nosso país.

A História reporta que ser surdo na antiguidade poderia significar uma sentença cruel. A depender da sociedade em questão, os surdos eram aprisionados em casa por suas famílias por motivo de vergonha; algumas sociedades os consideravam pecadores e os condenavam; outras os consideravam pessoas amaldiçoadas e os jogavam em rios; na Grécia eram condenados à morte e jogados do topo de rochedos.

A língua de sinais no passado era usada de forma clandestina, pois era alvo de preconceito. Antigamente, defendia-se que os surdos deveriam ser oralizados, ou seja, deveriam ser obrigados a falar e só usar a comunicação oral. Quem tentasse usar os sinais era repreendido e também considerado preguiçoso.

No Brasil, foi Dom Pedro II quem teve um olhar diferenciado à questão. Em 1857 foi ele quem fundou o Imperial Instituto de Surdos-Mudos para atender meninos surdos, depois também passou a atender meninas.

Hoje o Instituto se chama INES – Instituto Nacional de Educação dos Surdos, e é responsável por enormes avanços para a comunidade surda brasileira. É a partir do trabalho desenvolvido no INES que a sociedade se torna mais inclusiva para esta comunidade.

Desde 2010 a profissão de tradutor e intérprete de libras é regulamentada pela Lei 12.319. E a formação deste profissional requer muita dedicação, seriedade e prática. Comunicar-se em libras não é simples, mas o esforço compensa enormemente, tanto para o profissional da área, cada dia mais requisitado, como para quem depende dele para receber informação.

Montar frases em libras segue uma lógica diferente da lógica da língua portuguesa, por exemplo. Na libras, os sinais precisam respeitar a sequência dos acontecimentos, e é absolutamente visual. Não tem preposição nas frases, nem verbo ser ou estar. As mensagens precisam ser mais diretas e bastante claras, num contexto completo.

Quem domina libras também é bilíngue. Fala português e libras. Quem dera um dia todos nós pudéssemos nos tornar bilíngues com o domínio desta língua maravilhosa, que além de comunicar atua como um processo importante de inclusão social.

Dica

Hoje a dica é o filme “O Milagre de Anne Sullivan”. Já ouviu falar desse filme? É a história real da professora Anne Sullivan, que é contratada por uma família cuja filha, Helen Keller, é cega e surda. A professora torna-se responsável por fazer com que Helen adapte-se e entenda o mundo que a cerca. Para se comunicar, a professora usa a linguagem de sinais. A história é incrível e, só pra você ter uma ideia, a professora Anne Sullivan acompanhou a trajetória de Helen por 49 anos. E Helen Keller tornou-se – veja só – uma escritora, conferencista e ativista social norte-americana. Vale a pena ir atrás dessa história.

 

Denise Domingues é jornalista, graduada em História

e atua como English teacher desde 2005.

Está no mercado como profissional independente desde 2011.

@teacher_domingues_denise

 

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