fbpx

Meia 92

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Após 34 anos de erradicação, poliomielite ainda causa sequelas em pacientes, que necessitam de equipamentos para mobilidade

blog-41

Médica de 51 anos conta que, após 14 cirurgias e a persistência de dores na perna afetada pela
doença, precisou usar uma órtese que a ajudou a melhorar sua rotina

O Brasil completa 34 anos, em 2023, do último caso de poliomielite registrado no país. Dados do
Ministério da Saúde apontam que, entre 1968 e 1989, foram notificados 26,8 mil casos da doença.
Em muitas dessas situações, pessoas que sobreviveram ao vírus podem ter desenvolvido algum tipo
de comorbidade ou limitação provocada pela infecção nos casos mais graves. Com isso, necessitam
de acompanhamento médico e até mesmo equipamentos para melhorar a mobilidade.

Assim como no caso da Covid-19, uma pessoa pode contrair o vírus que causa a poliomielite e não
desenvolver a doença, ou apresentar sintomas leves, conforme explica o médico fisiatra e
ortopedista de Porto Alegre (RS), Paulo Henrique Gomes Mulazzani. Ele comenta que o Brasil passou
por surtos da doença durante o século 20, nos quais alguns pacientes desenvolveram a forma mais
grave da doença e tiveram os movimentos dos membros afetados. “Foram muitos casos que
aconteceram no Brasil, mas notadamente foram contabilizadas as situações que resultaram em
sequelas”, diz.

Caso semelhante é o da médica Ryvia Rose Ferraz Bezerra, 51 anos. Aos nove meses de vida, ela foi
diagnosticada com a doença, o que afetou seus movimentos. “Na ocasião, eu estava aprendendo
andar. De lá pra cá foram 14 cirurgias com o objetivo de me ajudar a caminhar. Com o decorrer do
tempo, as dores na perna afetada pela doença me levaram a considerar a necessidade do uso de um
equipamento que auxiliasse na minha locomoção”, conta.

O especialista explica que essa consequência da poliomielite acontece porque o vírus afeta o sistema
nervoso dos pacientes. “O nervo funciona como um fio elétrico que leva força do cérebro para as
extremidades do corpo, passado pela medula. Com o agravamento da poliomielite, a transmissão da
força fica comprometida. Muitas crianças cresceram, dessa forma, com alguma deficiência nos
membros, e precisaram de equipamentos para garantir mais autonomia”, explica.

Rotina de adaptação

Ryvia passou a usar uma órtese já na vida adulta. Trata-se de um equipamento que melhora a
mobilidade, ao mesmo tempo que ajuda na diminuição da dor, corrige más posições e também
ajuda no processo de cicatrização, caso seja necessário. Ela procurou uma clínica da empresa alemã
Ottobock, que é referência na produção destes equipamentos.

A médica utiliza a órtese C-Brace, que abrange joelho, tornozelo e pé. O equipamento permite ao
paciente realizar movimentos em planos inclinados, solo irregular ou subir e descer escadas. A
órtese possui tecnologia por sensores, o que torna a sequência de movimentos mais dinâmica para o
usuário. Além disso, ajustes na articulação permitem que a pessoa ande de bicicleta. O médico
fisiatra comenta que esses equipamentos com tecnologia mais avançada trazem facilidade na
caminhada e mais estabilidade. “A pessoa consegue ter mais independência”, completa.

Quando começou a usar a órtese, Ryvia passou por um momento de adaptação, que veio
acompanhado do receio por estar com um equipamento envolto à perna. “Como é natural em todo
começo, veio o medo de não me adaptar e de cair. Mas isso foi superado com perseverança e com o
apoio que recebi da equipe que me auxiliou. Os profissionais que fazem parte da reabilitação são
fundamentais na adaptação, manuseio e cuidados com a órtese”, comenta.

Em documento de 2016, intitulado Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com Síndrome
pós-Poliomielite e Comorbidades, o Ministério da Saúde orienta que o tratamento de casos que
envolvem a síndrome ou sequelas “deve ser realizado por equipe multiprofissional de modo
interdisciplinar e a partir da construção de projeto terapêutico singular”. Segundo a Ottobock, as
clínicas em que os pacientes fazem acompanhamento possuem profissionais como técnicos e
fisioterapeutas para o tratamento dos usuários de equipamentos.

Melhoria na mobilidade

Para a médica, tem sido mais fácil realizar caminhadas de longas distâncias e ficar de pé por tempo
moderado. “Como uso da órtese tem uma marcha quase funcional, consigo andar boas distâncias, e
ficar em pé não é mais problema. Minha postura também ficou mais bonita e alinhada”, afirma.
Como todo equipamento, a órtese que Ryvia utiliza precisa de cuidados. A médica afirma que é
importante manter a higiene do equipamento, evitar molhar e sempre posicionar verticalmente a
órtese quando não for utilizada. Ela também faz revisões periódicas para que a utilização seja mais
eficiente. “No começo, foram precisos alguns ajustes na órtese com intervalos menores. Atualmente
isso acontece ainda, mas com período maiores entre uma manutenção e outra”, explica.

Vacinação em queda

Os índices de vacinação contra a poliomielite no Brasil tem apresentado queda desde o ano de 2016,
o que liga um alerta na sociedade como um todo, em especial na comunidade médica e científica.
Naquele ano, pela última vez, o país superou a marca de 90% de cobertura vacinal do público-alvo,
mas os índices caíram desde então. Em 2021, segundo o Conselho Nacional de Saúde, a vacinação
atingiu 69,9% das crianças aptas a serem imunizadas. Os números trazem preocupação porque,
apesar de o Brasil ter registrado o último caso da doença em 1989, outros países do mundo ainda
não erradicaram a doença, o que pode fazer o vírus voltar a circular por aqui.

Conteúdo Relacionado