fbpx

Meia 92

sexta-feira, 1 de março de 2024

VIDA BILÍNGUE – Se o seu plano é morar em outro país, aprenda a língua de lá

308a7687-247d-4091-96ce-e16a058dc434

É muito comum brasileiros decidirem se mudar para outros países sem dominar ou nem mesmo saber o básico do idioma do país destino. Via de regra, ouço dessas pessoas que “o melhor é ir falando no dia a dia para aprender, curso não é necessário, toma muito tempo.”

De fato, fazer um curso de idiomas, seja inglês, alemão ou outra língua requer um bom período de dedicação e prática. E sim, praticar o idioma no dia a dia ajuda no aprendizado, aliás é um baita impulso. Mas uma prática não anula a outra. E isso é extremamente importante.

Pra quem não sabe um idioma e vai precisar dele, é fundamental internalizar o seguinte: um curso que sistematize o aprendizado, conjugado com a prática da conversação e combinado com o uso diário é a fórmula do sucesso pra qualquer um que tenha tais planos de mudança.

A jornalista Gislene de Lima Kamp, que reside na Alemanha desde 2003, atua como professora de português como língua estrangeria para alemães e também assistente de contabilidade naquele país. Ela  possui uma experiência robusta quando o assunto é o aprendizado de outro idioma no país de origem.

Ela nos concedeu uma entrevista pra contar como foi se mudar para a Alemanha, adquirir fluência na língua nativa do país, e ainda pontua o quanto é importante saber falar o idioma local se o intuito da pessoa é estabelecer residência e desenvolver uma carreira profissional lá. Confira!

 VIDA BILÍNGUE: Conte-nos um pouco sobre sua mudança do Brasil para a Alemanha e como foi a sua adaptação ao idioma.

Migrei pra cá em março de 2003 porque meu namorado na época e hoje marido é alemão. Minha adaptação ao idioma no começo foi intensa e até meio “brutal”, porque eu queria aprender tudo possível em curto espaço de tempo para não ficar muito tempo desempregada. Estava dando certo até eu fazer a primeira viagem de visita à minha família em SP (cerca de 10 meses depois). Senti que deu um nó na minha cabeça e me vi falando alemão com minha família em alguns momentos, foi vergonhoso. Percebi que a imersão no estudo da língua alemã não era apropriada para minha idade, na época com quase 36 anos.

VIDA BILÍNGUE: Como foram suas aulas de alemão já no país e como foi sua rotina de estudos e práticas para chegar à fluência?

Primeiro comecei a aprender alemão em SP (6 meses antes da migração), não conseguia fixar muito vocabulário porque tinha coisa demais para resolver antes da mudança e trabalhei até às vésperas da viagem. Mas um ano antes de me mudar, numa viagem de 1 mês, participei de um curso de verão numa escola na cidade onde meu namorado morava. Foi uma ótima experiência. Quando me mudei para lá fui para essa mesma escola, onde já conhecia uma das professoras. Mergulhei no ensino da língua por uns 18 meses (tendo no meio uma viagem de umas 3 semanas no Brasil – que como expliquei, quebrou meu ritmo). Achei que depois de 1 ano de estudo diário estaria apta a me candidatar em alguma coisa, mas meu alemão ainda não era suficiente para ser convincente numa entrevista de trabalho. Mudamos de estado/cidade, fui para outras escolas fazendo cursos 2x semana para solidificar o que tinha aprendido e pôr em prática. Percebi que eu tinha muita teoria de gramática, mas ainda pouco prática em conversação. Percebi também que a idade e ter um companheiro falante de espanhol e português me inibia a “soltar a língua” com a língua de Goethe. Depois me preparei para uma prova oficial do Instituto Goethe que me rendeu 2 meses de 7h de cadeira/dia. Anos depois fiz uma formação profissional de 3 anos na área de direito tributário, nesse a preparação para a prova final era de 10/12h de cadeira/dia. Passei, mas não o faria novamente, inclusive porque qualquer formação aqui tem prova oral – que é o principal desafio para um não falante nativo.

VIDA BILÍNGUE: Você é professora de português para alemães na Alemanha. Como os alunos alemães encaram a rotina de estudos de um idioma? Pode nos detalhar?

A maioria dos meus alunos numa instituição nacional de educação e cultura aprendem português do Brasil por vínculos familiares. São namoradas/dos ou cônjuges de brasileiras/os ou têm familiares no Brasil, ou querem se comunicar com a família brasileira dos seus cônjuges. São 99% pessoas adultas entre 30 e 75 anos, alguns têm netos binacionais. Eles têm muita disciplina com tarefas em casa e tomam a aprendizagem de português como um projeto de anos, porque não praticam a língua de forma intensa no seu cotidiano e têm consciência disso. Nos semestres de outono e inverno os cursos são mais frequentados. Por aqui sair embaixo de neve para 90 minutos de um curso de línguas é mais comum que numa tarde com 35, 37 graus no verão pleno. Mesmo assim não posso me queixar, porque nunca tive nenhum semestre de primavera/verão sem ter alunos inscritos.

Mas tenho outro público de alunos que são estudantes universitários (jovens entre 22 e 27/28 anos). A diferença é brutal. A maioria tem interesse imediato de aprender a língua o mais rápido possível, porque vão para estágios no Brasil ou para intercâmbios universitários em Portugal através do programa Erasmus. Eles têm muita facilidade na aprendizagem (estrutrura da língua, fixação de vocabulário), porque já sistematizaram com outras línguas, como francês e espanhol – e é claro com o inglês). Os alunos da universidade onde dou aulas não só fazem todas as tarefas, como entregam todas as redações que peço e fazem todos as dinâmicas de conversação com a maior facilidade. A permanência desses universitários em curso é de 1 ano, enquanto que na instituição nacional para adultos a média é de 5 anos.

VIDA BILÍNGUE: Você se dedicou integralmente durante um bom tempo ao estudo da língua e a outros estudos para ampliar suas oportunidades no mercado de trabalho alemão. Dominar a língua fez diferença neste processo? E quais dicas daria para aprendizes da língua?

Dominar a língua é o principal fator para abrir caminhos no mercado de trabalho seja na Alemanha, Áustria ou Suíça, porque a língua é de longe o principal obstáculo.

Tenha disciplina na aprendizagem pelo menos até sair do nível intermediário e, principalmente, seja você jovem ou adulto, procure uma plataforma para fazer conversação com nativos de alemão. Têm muitos que procuram brasileiros para fazer “tandem” troca de língua. Somente teoria sem pôr na prática a conversação é meio caminho para a desistência de aprender a língua. E para quem pode investir, participe de um curso compacto de verão numa escola de línguas aqui. Além de ser uma experiência boa para conhecer um pouco da cultura (já que no verão tudo é muito mais fácil e aberto), o aluno pode fazer amizades e seguir com essas amizades à distância, tornando a comunicação com ex-colegas de curso num grande estímulo para seguir praticando a língua.

Conteúdo Relacionado