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sábado, 24 de fevereiro de 2024

Transplante de córnea é o tipo mais realizado no Brasil, mostra relatório

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Segundo Associação de Transplante de Órgãos, recuperação das taxas de transplantes e doadores é lenta desde pandemia

De acordo com o último relatório anual da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), o transplante de córnea foi o tipo deste procedimento que mais ocorreu em 2022. Divulgado nesta segunda-feira (6), o documento Registro Brasileiro de Transplantes aponta que 21.161 pessoas aguardam pelo transplante de córnea, em 2022, ficando atrás apenas do tamanho da fila de rim.

Ainda de acordo com o relatório, quase 14 mil córneas foram transplantadas no Brasil, número abaixo do esperado para cobrir a demanda necessária pelo procedimento no Brasil. Com efeito, cerca de 4,9 mil pessoas que precisavam do transplante em 2022 ainda estão na fila de espera, que alcançou tamanho inédito. Pela primeira vez, mais de 50 mil pessoas aguardam por um transplante de órgão.

De acordo com o especialista Ricardo Fillipo, oftalmo na rede de clínicas COI, o setor médico já retomou a capacidade operacional e logística do período pré-pandemia, para realizar os transplantes. Contudo, faltam doadores.

“Um dos fatores que podemos mencionar em relação ao aumento da fila de transplante de córnea é o fato de a quantidade de doadores ainda não ter voltado ao normal após a pandemia. Portanto, o grande desafio para mudarmos essa realidade das córneas é a conscientização das famílias dos possíveis doadores”, ressalta Fillipo.

Segundo as considerações da ABTO, a recuperação das taxas de transplante e doadores evolui em ritmo lento desde a pandemia, sugerindo que outros fatores estejam no caminho de retomada para as taxas obtidas em 2019, quando foram registrados 18,1 doadores por milhão de pessoas.

A mesma taxa fechou em 16,1 pessoas no último ano — apenas um doador a mais do que o ano mais crítico durante a pandemia, em 2021. Isto reflete em taxas de efetivação de doação abaixo do esperado pela associação.

“Este é o único tratamento que depende da população. Desde 1998 a política de transplantes no Brasil está ancorada em quatro pilares: legislação, organização, financiamento e educação. Contudo, é preciso que haja aprimoramento desse sistema”, afirma o Dr. Duro Garcia, editor do relatório.

Garcia cita o aspecto legal como obstáculo para maior cobertura de transplantes. Hoje, a doações são efetivadas apenas se a família do doador permitir, mesmo quando a pessoa tenha escolhido doar em vida.

“A minha decisão de doar estaria documentada em vida e, quando fosse o momento, a base de sistema dos transplantes recebia minhas documentações assinadas para permitir a doação, independente do crivo familiar”.

Pertencente ao Ministério da Saúde, o Sistema Nacional de Transplantes, na avaliação de Garcia, já realiza com eficiência demandas logísticas, como envio de tecido e órgãos para transplante entre estados. Somado a isto, ele afirma, existem unidades hospitalares e equipes médicas suficientes para realizar todos os transplantes necessários de córnea, por exemplo.

“O ideal era a lista de transplantes de córnea ser zero. Alguém ingressa na fila de espera e aguarda apenas 90 dias pelo procedimento. No entanto, como faltam córneas no Brasil, as pessoas deixam de transplantar e fila tende a continuar crescendo”.

Para ele, é necessário um trabalho educativo junto à população:

“A população tem que estar favorável. é a única forma de tratamento que depende da população. E por meio de campanhas educativas e de conscientização, este cenário pode mudar”.

Transplante de córnea foi o tipo mais prejudicado durante a pandemia

Sobre o fator de pandemia na lentidão da retomada, Garcia explica que os transplantes de córnea foram os procedimentos mais prejudicados. Como postergar a operação não salva a vida dos pacientes, ela precisou parar.

“Tu permitiu que ninguém morresse, ou ficasse exposto à Covid-19. Agora tem que correr atrás”, finaliza.

Na avaliação de Fillipo, a depender da doença de base que o paciente possui, o atraso do transplante pode levar à cegueira definitiva, como em casos onde há perfuração ocular e infecção grave sem resposta ao tratamento. Fillipo explica também que, em episódios menos urgentes, a espera impacta diretamente na qualidade de vida do paciente.

Camada anterior à dimensão frontal do olho, a córnea tem função de proteger e focalizar a luz.  Ao concentrar esta luminosidade na retina — parte do fundo dos olhos — a disfunção no local pode gerar quadros cegueira, como na trombose ocular, pois é na retina onde ocorre a troca de sinais com o cérebro na formação de imagens.

“O paciente pode sofrer prejuízos na qualidade de vida, como em atividades sociais e do dia a dia, e também no trabalho, podendo muitas vezes o impedir de trabalhar e forçando uma aposentadoria por invalidez”, afirma Fillipo.

De acordo com o oftalmologista, entre os danos e as doenças que estão na raíz pela necessidade do transplante, são doenças com maior ocorrência a ceratocone, distrofias corneanas, ceratopatia bolhosa, infecções corneanas graves, leucomas (cicatrizes corneanas secundárias a trauma, queimaduras e infecções), entre outras.

Segundo Garcia, ainda que seja observada uma demanda maior pelos transplantes de córnea, a fila de espera pelo novo rim é maior devido à condição do doador.

Ele explica que grande parte dos transplantes só podem ser realizados quando o doador tem morte encefálica, o que ocorre apenas em 1% dos doadores ativos. Por outro lado, é clinicamente viável realizar o procedimento de córnea a partir de doadores com morte circulatória — os outros 99% dos casos.

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