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segunda-feira, 20 de maio de 2024

Psicóloga mostra a seus pacientes a importância de eles se priorizarem

OIP

A experiência mostrou à Gislene Erbs que privilegiar as necessidades e desejos dos outros e colocar seus próprios objetivos em segundo plano causa prejuízos ao bem-estar, qualidade de vida e felicidade

Em suas consultas, a psicóloga, hipnoterapeuta e coach sistêmica, Gislene Erbs, detectou um problema que se repetia com diversos pacientes: eles tinham extrema dificuldade em dizer não às demandas alheias, privilegiando as necessidades e desejos dos outros e colocando suas prioridades em segundo plano, o que impactava negativamente o bem-estar, a felicidade e a qualidade de vida deles.

Durante os atendimentos, Gislene buscava orientá-los a superarem a dificuldade de dizer um não categórico sempre que isso se fazia necessário, habituando-os a praticar a arte de colocarem-se em primeiro lugar. Buscando romper as barreiras de seu consultório e difundir a mensagem de empoderamento para um número maior de pessoas, Gislene escreveu o livro “Sim ou Não – A difícil arte de colocar-se em primeiro lugar na sua vida”, da editora Literare Books International.

O impulso para abordar o assunto veio do trato com os pacientes, mas o conteúdo apresentado na obra não é fruto apenas de sua prática profissional e conhecimento teórico, mas também, claro, de sua experiência. Em sua vida, Gislene se deparou mais de uma vez com situações em que precisou impor limites àqueles ao seu redor. Muitas vezes conseguiu e se fortaleceu. Outra vezes anulou-se, tendo somente a vontade alheia como norte, o que custou caro para sua saúde física e mental.

Natural de Luiz Alves, interior de Santa Catarina, Gislene teve uma infância pobre e uma educação rígida. Ainda era criança quando se mudou para Joinville (SC) com seus pais, em busca de uma vida melhor. “Minha mãe conta que nessa época precisava dividir até ovo comigo. Nós nunca chegamos a passar fome, mas sempre foi tudo muito contado, controlado”, relata. A despeito de ser filha única, Gislene nunca se sentiu cheia de mimos e cuidados.  “Meus pais faziam questão de estabelecer limites. Então, quando eu chorava para ganhar algum presente, eles não me davam, justamente para que eu não ficasse mimada”, lembra.

Por conta da infância pobre, sem perspectivas, embora tranquila e feliz, Gislene nutria o desejo de conhecer outros lugares do mundo. Para isso, pensou até em se juntar a uma congregação religiosa, sem nunca ter tido a real vontade de se tornar freira. Acabou não dando certo, porque seus pais tinham outros planos. “Eu fui educada e preparada para casar, porque para eles isso significava que eu estaria segura dos perigos da vida”, diz. E assim foi: Gislene casou-se com 17 anos, na mesma época em que ingressou na faculdade, para tentar concretizar um de seus sonhos de criança: trabalhar com artes plásticas. O outro, ser psicóloga, tornou-se realidade anos depois.

Ainda uma adolescente, Gislene se viu tendo que manejar uma rotina estressante. Ela precisava fazer caber no seu dia, o cuidado da casa e dos filhos, que vieram nos primeiros anos de casamento; os estudos na faculdade; e o trabalho na empresa familiar de confecção, que estava repleta de pedidos. “Em alguns dias da semana eu ficava sem dormir, para conseguir dar conta de todas essas atividades e ganhar dinheiro suficiente para custear a faculdade e ajudar no sustento da família”, conta.

Depois de seis anos de casamento, Gislene resolveu dizer o seu primeiro “não”. Deixando de pensar no que seu esposo queria e colocando-se em primeiro lugar na sua lista de preocupações, divorciou-se. A psicóloga explica que ela e o esposo não comungavam dos mesmos princípios e valores. “Eu ficava muito tempo sozinha e não o considerava nem um bom marido nem um bom pai. Comecei a adoecer mentalmente e percebi que não estava valendo a pena. Como não desejava que os meus filhos entendessem que esse tipo de relacionamento é uma norma, resolvi dar um basta”, explica.

Tempos depois, Gislene começou a se relacionar com outra pessoa, que ao contrário do seu ex-marido, deu o suporte que ela precisava para seguir o sonho de se tornar psicóloga. “Eu sempre fui curiosa em relação as ‘coisas da vida’, e ansiava entender o comportamento humano”, conta. Assim, logo após terminar a faculdade de artes, em 1994, surgiu uma oportunidade de Gislene cursar uma especialização em psicanálise, que ela agarrou e adorou. “Foi durante estes estudos que eu percebi que precisava fazer uma faculdade de psicologia”, explica. Mãe de dois filhos, cheia de afazeres, precisou postergar seu sonho, que foi concretizado anos depois. Em 2007 estava formada em psicologia.

Neste ínterim, entre os términos dos dois cursos, Gislene havia deixado de trabalhar na empresa familiar, algo que precisou voltar a fazer, para tentar ajudar o empreendimento que se afundava em dívidas. Pensando no bem-estar dos outros ao invés de seu próprio bem-estar, a psicóloga tornou-se avalista de dívidas que não eram suas. “Eu que tive uma educação muito rígida, no sentido que deveria ser correta com tudo, de que não poderia gastar o dinheiro que não tinha, de repente me vi cercada de cobranças e com o nome negativado”, relata.

Por 16 anos, Gislene lutou para recuperar seu nome. Os tempos em que se viu imersa em dívidas cobraram seu preço até mesmo em sua carreira de psicóloga. Para ter um alívio dos cobradores que insistentemente a procuravam, Gislene trocou de número de telefone e acabou perdendo os contatos de vários clientes. “Além disso, eu não conseguia comprar um móvel para o meu consultório, porque meu nome estava ‘sujo’ na praça”, conta. Esses acontecimentos contribuíram para que Gislene entrasse em depressão profunda e desenvolvesse um câncer de útero, doenças das quais hoje está curada.

Há quatro anos, Gislene conseguiu se reerguer financeiramente. O episódio serviu para que ela aprendesse a lição de que suas vontades e de que o seu bem-estar devem ser prioritários. “Hoje eu não empresto meu nome mais para ninguém”, garante. Há dois anos, a psicóloga “virou a chave”, ao decidir que sua história poderia servir de inspiração para que mais pessoas se conscientizassem da importância de dizer não aos outros e sim a elas mesmas, de maneira consciente e equilibrada.

Assim, compartilha as lições que a vida lhe ensinou no livro “Sim ou não – difícil arte de colocar-se em primeiro lugar na sua vida” e na sua profissão. Mas em suas consultas, o que mais tem peso são seus conhecimentos teóricos e práticos.  Além da psicanálise, especializou-se em hipnose ericksoniana e tem mestrado em saúde. “A minha interpretação é psicanalítica, mas as práticas que eu desenvolvo sãos de várias linhas sempre com um foco sistêmico”, explica. Conforme ela, sua característica maior como psicóloga é extrair o que, em sua concepção, é o melhor de cada linha para aplicá-la em seus pacientes, visando o resultado mais eficaz.

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