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domingo, 3 de março de 2024

VIDA BILÍNGUE – Hablas español?

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Eu não sei você, mas eu já caí, sim, naquele velho conto do “espanhol e facinho, quase igual português, então relaxa, fala qualquer coisa e eles vão entender.” Mas a verdade é SQN = só que não!

Me lembro de pisar em Madri em 1997, era minha primeira viagem internacional, eu estava mega empolgada, e fui tranquíííla, achando que era só falar, pedir, solicitar em português e os madrilenhos me entenderiam com facilidade.

Já na chegada, lá no Aeroporto Internacional Adolfo Suárez/Madri-Barajas, o primeiro perrengue: peguei uma fila monstro na imigração, era muita, mas muita gente, e demorei pelo menos uma hora e meia pra me desvencilhar dela. Demorou tanto que quando cheguei no saguão, onde supostamente meu transfer estaria me aguardando, não havia mais ninguém! Com exceção de um motorista, um madrilenho nervoso que aguardava um casal de argentinos para o transfer até o hotel. Fiquei em pânico, óbvio, pensando “E agora, cadê meu transfer?” Tentei me comunicar com esse madrilenho, mas foi em vão. Os argentinos, então, intervieram, e vendo meu pânico pediram para que ele me desse uma carona. Ele deu (ufa)! Mas gente, eu acho que ele xingou muito, porque gesticulava e falava sem parar, eu não sei bem o quê…

Fiquei três dias em Madri, andei pra cima e pra baixo, visitei vários lugares, o Museu do Prado, mas perdi dois city tours. Por um motivo besta: problemas na comunicação no hotel. Naquela época, lembrem-se, não tinha essa coisa de aplicativo, tradutor, whatsapp, google, nada disso. No máximo um livreto com frases prontas, que eu levei e não usei. Na verdade, usei apenas pra decorar os dias da semana, depois que perdi os passeios…

No quarto dia, antes de partirmos para Portugal de ônibus, eu puxei assunto com um casal de mexicanos. Ele foi muito educado, mas ela (pensei eu) não foi nada educada. Eu falava em português, misturava um portunhol (ai, eu fiz isso, gente!!!) e ela simplesmente me deixava falando sozinha, virava e saía. Então o senhor mexicano me fez a seguinte pergunta: “Do you speak English?” Pensei, EUREKA, sim!!! E ele completou em inglês: “Veja, minha esposa não é mal educada, mas ela entra em pânico quando você fala em português. Não entendemos nada. Se você fala inglês, sugiro que use-o.”

Moral da estória: ou você fala espanhol direitinho ou fala inglês. Não adianta arriscar nesse tal de portunhol. Via de regra mais atrapalha do que ajuda.

Mas como espanhol não é minha especialidade – como você já pôde perceber – eu convidei a professora Cidália Vieira dos Santos, especialista no idioma espanhol, para falar mais sobre a língua e sobre essa insistência do brasileiro em sacar o portunhol do bolso pra se resolver nos países de língua espanhola.

 

VIDA BILÍNGUE: Nos conte um pouco sobre o seu interesse pela língua espanhola. Como essa paixão acabou te transformando numa profissional do idioma?

Eu comecei a estudar espanhol aos 15 anos no CEL (Centro de Estudos de Línguas). Eu poderia ter estudado inglês, mas a oportunidade surgiu na língua espanhola. Sempre quis ser professora, mas queria ser professora de língua portuguesa. O espanhol apenas surgiu como uma oportunidade para aprender algo novo. E não é que gostei desde o primeiro momento que escutei? E foi assim, fui tomando gosto terminei o curso aos 18 anos. Dois anos depois, em 2005, prestei o vestibular para Letras com a habilitação em espanhol na PUC-SP e em 2013 fiz uma pós graduação em Estudo de Espanhol para Brasileiro. Eu, definitivamente, sou feliz e amo o meu trabalho.

VIDA BILÍNGUE: Qual a importância do espanhol no universo corporativo brasileiro e mundial hoje?

Hoje o espanhol é considerado a segunda língua mais falada do mundo. O país que possui a maior concentração é o México. No universo corporativo e mundial, a língua representa uma ponte de oportunidades quando falamos do Mercusul.

VIDA BILÍNGUE: O Brasil é o único país da América do Sul que não fala espanhol como língua nativa. Você acredita que estudar espanhol leva o estudante brasileiro a se interessar mais pela cultura dos nossos países vizinhos e amplia as chances de trabalho nesses (e outros) países de língua espanhola?

Depende. O estudante segue pensando que aprender inglês abre mais portas que o espanhol. Penso que deve haver profissionais da língua espanhola que demonstre o contrário, porque aprender um idioma vai muito ao encontro do que o estudante busca. Pensando assim, é possível fazer um trabalho por esse caminho e mostrar ao estudante o quão importante pode ser este idioma.

VIDA BILÍNGUE: O que é o “portunhol”, que tantos brasileiros dizem que usam para se comunicar em países de língua espanhola? Ele ajuda mesmo, ou na verdade não funciona?

 

Não funciona, porque aprender espanhol é muito mais complexo do que pensamos. Sabemos que o português e o espanhol são línguas semelhantes, mas nem por isso devemos fazer um carnaval da língua, pois são línguas diferentes. O portunhol é uma forma de dizer que se está comunicando com a língua espanhola, mas se formos levar tudo no portunhol o brasileiro vai acabar se perdendo e vai falar coisa que não se deve.

VIDA BILÍNGUE: Aproveitando sua experiência e conhecimento com o espanhol, quais dicas você pode deixar para quem ainda reluta em se aprimorar na língua e insiste no “portunhol”?

Acho que o mais importante é você estar aberto a aprender o idioma. Perceber que os desafios fazem parte e isso é ótimo. Então escreva, busque, escute e fale. O espanhol é como se fosse um mapa mental, você aprende algo novo que pode ou não ser assimilado com o português, essa é a ideia. Quando eu comecei a estudar, eu tinha vários questionamentos, pois eu sempre fui muito curiosa. Então comparar a ideia do idioma como uma proposta de mapa mental faz todo o sentido pra mim, já que estou fazendo hipóteses, hipóteses estas que serão corrigidas nas aulas.

Denise Domingues é jornalista, graduada em História

e atua como English teacher desde 2005.

Está no mercado como profissional independente desde 2011.

@teacher_domingues_denise

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