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Meia 92

domingo, 3 de março de 2024

Garimpeiros continuam invasão de terra yanomami e demonstram resistência

Funcionários do Ibama destroem equipamentos e aeronaves encontrados na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, na operação desencadeada no território no último dia 6 de fevereiro - Ibama-Divulgação

Equipes do Ibama detectaram um fluxo de embarcações de garimpeiros com combustível e mantimentos entrando na Terra Indígena Yanomami, um indicativo da continuidade da atividade de exploração de ouro e cassiterita apesar das ações para seu desmonte.

Além disso, agentes do órgão ambiental federal constataram a disposição de grupos de invasores armados à resistência e ao enfrentamento a forças policiais que passaram a operar para destruição de aeronaves e maquinários e para a retirada dos garimpeiros.

A continuidade do fluxo de invasores terra indígena adentro e a disposição à violência dão uma dimensão da complexidade e do tamanho do problema da invasão garimpeira na área yanomami, que contou com a conivência e o estímulo do governo Jair Bolsonaro (PL).

“Eu nunca vi uma destruição tão grande e tanta gente envolvida em crime ambiental. Esses 15 mil, 20 mil garimpeiros equivalem à população de uma cidade pequena”, disse à Folha o coordenador das ações de fiscalização do Ibama na terra yanomami, Givanildo dos Santos Lima.

Lima falou com a reportagem no começo da noite desta sexta-feira (10), no pátio da superintendência da Polícia Federal em Boa Vista, onde estão carcaças de aviões e helicópteros do garimpo, apreendidos pela PF.

Um centro de comando e controle foi instalado na sede da superintendência, com o objetivo de planejamento das ações da chamada Operação Libertação. A operação reúne Ibama, PF, Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), Força Nacional de Segurança Pública e Ministério da Defesa.

As primeiras ações na terra yanomami foram executadas por agentes do Ibama, na segunda (6) e na terça (7). Houve destruição de aeronaves e maquinários, além de apreensão de mantimentos transportados por garimpeiros.

Nesta sexta, a PF e as Forças Armadas participaram de mais uma ação no território. A operação contou com helicópteros do tipo Black Hawk, com capacidade para transportar mais de dez policiais cada um. Antes, ao longo dos últimos dois anos do governo Bolsonaro, as Forças Armadas negavam o fornecimento de helicópteros do tipo para operações na terra yanomami.

O governo Lula (PT) declarou estado de emergência em saúde pública no dia 20 de janeiro, em razão da explosão de casos de malária, desnutrição grave e infecções respiratórias –associadas à fome– entre os yanomamis, especialmente nas regiões de Surucucu e Auaris. Nesta semana, teve início a Operação Libertação.

Já há um consenso no centro de comando e controle para permissão de saída de garimpeiros que assim a desejarem, sem prisão.

Uma restrição inicial do espaço aéreo pela FAB (Força Aérea Brasileira), já flexibilizada, e a expectativa de realização de operações na terra indígena levaram a uma fuga de grupos de garimpeiros.

Quem não consegue pagar por voos clandestinos em aviões e helicópteros precisa fazer o caminho de volta pela floresta –são dias de varação pela mata–, em barcos –os percursos duram um ou dois dias– e a pé por estradas vicinais que conectam portinhos a vilas no interior de Roraima.

O coordenador das ações de fiscalização do Ibama disse que mais garimpeiros estão saindo do que entrando, mas que segue o fluxo de invasores para dentro do território.

“Enquanto tem gente saindo, tem gente entrando. As equipes abordaram 20 embarcações de gente entrando pelo rio Uraricoera, com combustível, comida e fogão”, afirmou Lima.

O plano traçado é permitir o fluxo de garimpeiros que estejam fazendo o caminho de volta, sem apreender o combustível usado nos barcos.

A orientação de prisão, conforme o coordenador do Ibama, é para garimpeiros que insistem em permanecer no território e que manifestam a intenção de resistência e enfrentamento, como já detectado pelas forças de fiscalização e policiais. Há grupos armados entre os que ameaçam resistência, segundo Lima.

Os garimpeiros estavam acostumados a ações pontuais no governo Bolsonaro, com presença de agentes do Ibama e da PF apenas por alguns dias, o que permitia esconderijos na mata e permanência nas áreas de garimpo, conforme o coordenador.

Agora, o plano é de uma ação contínua, “sem prazo para acabar”. “Só termina quando retirar todos os garimpeiros.”

Conforme o coordenador, toda a estrutura do Ibama está montada para durar seis meses, com ações ininterruptas de equipes que se revezarão de 20 em 20 dias. Essa permanência poderá ser prorrogada por seis meses. Lima acredita que a retirada definitiva dos garimpeiros pode durar um ano.

“A gente vinha para cá com prazo para terminar [a operação]. Agora, viemos com prazo indeterminado. Montamos uma base operacional de combate ao garimpo”, disse o coordenador.

Uma primeira base permanente já foi montada, e há previsão de instalação de novas bases, com presença de agentes do Ibama, PF e Força Nacional de Segurança Pública. A logística cabe ao Exército.

As primeiras incursões mostram uma ampla destruição pelo garimpo. “Há aldeias completamente destruídas, por raio de quilômetros. O garimpo espanta a caça, os indígenas não conseguem mais pescar. Há aldeias sem água potável. Não dá nem para tomar banho [nos rios enlameados pela atividade garimpeira]. Por isso aqueles quadros de desnutrição”, afirmou Lima.

Os casos de proximidade entre garimpeiros e indígenas, com cooptação para a exploração de ouro e cassiterita, são pontuais, segundo o coordenador do Ibama. “Os garimpeiros oferecem coisas que esses indígenas não conheciam, como álcool e alguns tipos de alimentos.”

No governo Lula, ministros passaram a admitir a dificuldade nas ações de desintrusão da terra yanomami, diante da constatação da realidade.

“Não vamos conseguir resolver isso numa semana. Temos ações e planos a médio prazo, a longo prazo. São ações que vão durar seis meses, um ano”, disse na quarta (8) a ministra Sônia Guajajara, dos Povos Indígenas.

No mesmo dia, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmou que existe a preocupação de “não prejudicar inocentes”, em referência a garimpeiros em fuga da terra yanomami.

“Têm pessoas que trabalham no garimpo para se sustentar. Têm mulheres, têm crianças. Têm alguns que estão trabalhando pelo seu sustento”, disse Múcio.

Fonte: Folha de S. Paulo

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